terça-feira, 11 de março de 2014

Horas de Saudade

Logo que cheguei do serviço esperei encontrar um bilhete teu em cima da mesa, dizendo que mal podes esperar para me ver. Um bilhete daqueles que deixavas toda vez que ficávamos mais de uma semana sem nos ver, toda vez que viajavas ou que eu viajava, aqueles bilhetes rasgados sem algum cuidado, com as margens assimétricas, onde deixavas a mensagem escrita com a primeira esferográfica ou qualquer outro instrumento que escreve, que encontravas na tua frente. Não guardei todos, é claro. 
O primeiríssimo de todos eles foi escrito no canto inferior da fatura da estação de serviço do teu carro. Ri-me tanto quando encontrei o papel, estava em baixo do vaso carmesim que ficava sempre em cima da mesa. ''Mal posso esperar para te ver'' em letras grandes, com tinta preta. Acho que a esferográfica que usaste foi uma Bic. Andava aí no meu copo de utensílios que ficava na mesinha de centro da sala. Quando eu li essas palavras meu coração disparou, parecia correr uma velocidade de 1000km\h, a adrenalina revestiu o meu corpo naquele momento, eu olhei para a porta da sala que dava para a varanda e o céu estava azul, as nuvens pareciam sorrir para mim. O cheiro de brisa do mar exalado pela vela que havias me oferecido no princípio do mês, pairava no ar. Respirei fundo e fui a correr para o quarto me preparar. Parecia uma adolescente com o seu primeiro namorado, eu estava eufórica, nada no mundo fazia tanto sentido quanto a minha certeza de estar perto de ti. Naquele dia o meu íntimo transbordava felicidade. Tão pequena como sou, a alegria não cabia em mim.
Não pensei duas vezes quando respondi por mensagem no telefone, a ansiedade era tanta que eu me sentei no sofá da sala concentrando o relógio. O tempo decidiu não me favorecer, os ponteiros davam passos de tartaruga.
Pensando bem, toda vez que estivemos juntos o tempo corria que nem lebre, maldito tempo! Toda vez que estive perto de ti, o tempo não foi generoso comigo, sempre era hora de ires embora, sempre era tempo de fazer qualquer outra coisa... Sempre te disse para fugirmos desse universo onde o tempo é o meu maior inimigo, tu nunca quiseste.
Talvez, se tivéssemos fugido do tempo, não terias tempo para ir embora porque o nosso momento seria sempre o agora. É, começo a achar que se não déssemos trela à esse tal de tempo, correríamos sem nos cansarmos porque não seríamos obrigados a parar; porque o nosso tempo não seria um ditador, as nossas práticas não seriam acusadas, viveríamos num universo sem correrias de dor e andaríamos sem medo de encruzilhadas.

Karen K

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